Gerson Guimarães
Participei de um encontro com instituições que realizam projetos junto à população e os definem como sendo ações de Tecnologia Social. Os projetos apresentados, efetivamente, melhoram as condições de vida das pessoas, levam soluções às demandas da comunidade, mas depois de várias apresentações, passei a me perguntar se realmente elas poderiam ser consideradas ações de Tecnologia Social.
Para exemplificar: assisti a exposição de um projeto para levar água potável para uma comunidade. A tecnologia foi apresentada, aceita e aprovada pela comunidade. A expositora relatou as etapas realizadas: como foram os vários encontros para envolver as pessoas que seriam beneficiadas, quais as ações realizadas para fazer com que elas participassem do processo de instalação dos equipamentos, como foi a capacitação de membros da comunidade para fazer a gestão do equipamento, entre várias. Portanto, aconteceu um envolvimento positivo de muitas pessoas no processo de implantar um sistema que tratamento da água. O objetivo “levar água de qualidade” para as pessoas foi alcançado e todos felizes. Sucesso e fim da apresentação!
E assim foram feitas muitas outras apresentações, nos mais variados setores: agricultura urbana com hortas comunitárias, projetos de geração de trabalho e renda com artesãos, entre outros. No entanto, após acompanhar o relato essas iniciativas, me veio uma “inquietação”: essas ações, tal como apresentadas, podem ser consideradas plenamente como Tecnologia Social? É importantíssimo que todos tenham acesso à água, que possam gerar trabalho e renda, que possam ter acesso a uma alimentação saudável…, mas uma ação que tem a Tecnologia Social como “fundamento” deve ter algo mais.
Imaginemos que as pessoas beneficiadas por esse sistema de água continuam inseridas em dinâmicas sociais marcadas por desinformação, manipulação ideológica e ausência de consciência crítica. Participam também de processos sociais e políticos sem questionamentos, reproduzindo narrativas impostas por redes sociais ou lideranças autoritárias. Elas podem estar seguindo algumas seitas religiosas e podem estar influenciadas por líderes que não querem mudanças na estrutura social; aceitam como “verdades” tudo o que as redes sociais conservadoras publicam…. e votam em um político reacionário tanto a nível municipal, estadual ou federal. Este processo, como veremos em outras pílulas, pode ser definido, como nos ajuda a neurociência, como “hackeamento” do cérebro” pelas redes sociais.
Nesse cenário, apesar do avanço material (acesso à água), não houve necessariamente transformação na forma como essas pessoas compreendem o mundo e sua própria realidade.
Nesse cenário, apesar do avanço material (acesso à água), será que houve a necessaria transformação na forma como as pessoas que participaram da iniciativa, compreendem o mundo e sua própria realidade? Será que continuam inseridas em dinâmicas sociais marcadas por desinformação e manipulação ideológica? Será que continuam participando de processos sociais e políticos sem questionamentos, reproduzindo narrativas impostas por redes sociais e lideranças autoritárias?
Claro está que as ações apresentadas no encontro que participei são dignas de elogios quanto aos resultados apresentados, ou seja, acesso à água, saúde, alimentação saudável, geração de renda etc. A sensação de que faltava algo me veio porque não tinha ouvido, dos vários expositores/as, quais foram as ações de educação de “formação cidadã” foram realizadas.
Todos nós que assumimos a Tecnologia Social como norteadora de nossas ações, temos que enfrentar o desafio de repensar as nossas práticas. Uma coisa já posso afirmar: sem um processo educativo libertador, o desenvolvimento e a simples aplicação de soluções práticas — como métodos, técnicas ou ferramentas – não é ação de tecnologia social; vira apenas tecnologia convencional adaptada — perde seu caráter transformador. Uma das dimensões da Tecnologia Social é a relevância social da ação realizada, ou seja, deve ter eficácia e sustentabilidade, mas deve ser complementada por outra dimensão que é a participação, cidadania e democracia.
A Tecnologia Social parte de problemas diretamente relacionados as demandas das comunidades e busca soluções eficazes e eficientes; aproxima os problemas sociais às suas soluções, mas, também, e fundamentalmente, deve levar aos que participam do processo “ler o mundo”, assumir a cidadania e empenhar-se, de alguma forma, para a construção de uma sociedade inclusiva e equitativa, ou seja democrática. Uma sociedade onde todos saibam que água potável, assim como outros direitos fundamentais, são direitos humanos aos quais todos os cidadãos da nossa tão maltratada Terra devem ter acesso. E onde todos lutem por políticas públicas para que garantam direitos constitucionais como saúde, educação e segurança, entre outros. E devemos, também, questionar como a sociedade na qual vivemos se organiza na produção, reprodução e distribuição da riqueza. Discutir sobre quem controla os meios de produção e o poder político. O processo da Tecnologia contempla a luta reivindicatória relacionadas a demandas mais imediatas, mas supõe uma leitura de como a sociedade organiza a riqueza e o poder. Em outras palavras (sendo repetitivo): a necessidade básica de água potável, a compreensão da realidade social que impede a o acesso à agua, a “luta” uma política pública de saneamento básico pode levar à compreensão de que o problema não é só local, que existe desigualdade na distribuição de recursos e que nos é imposto um modelo de desenvolvimento excludente. A Tecnologia Social parte de uma ação e luta imediata para gerar uma consciência política mais ampla. Essas duas dimensões, reivindicatório e estrutural, não são separadas, elas se retroalimentam num processo dialético.
A Tecnologia Social não se limita a oferecer soluções técnicas para problemas sociais. Ela deve, necessariamente, incorporar uma intencionalidade de transformação social.
Isso significa que parte das demandas concretas das comunidades, que constrói soluções forma participativa. Mas, sobretudo, promove a capacidade dos cidadãos que participam do processo “ler o mundo” e estimula a consciência crítica, a participação cidadã e a ação transformadora, pessoal e comunitária.
Uma ação só pode ser considerada verdadeiramente Tecnologia Social quando contribui para que os sujeitos compreendam: As causas estruturais dos problemas que enfrentam, as relações entre sua realidade local e o contexto mais amplo da sociedade, assumam a luta pelos seus direitos e ajude na construção de ações coletivas.
O “trabalho” do educador que tem a Tecnologia Social como norteadora de suas ações, é fazer com que os elementos constitutivos da realidade sejam compreendidos dentro do seu contexto e relacioná-los com o todo da sociedade, ou seja, além de dar resposta concreta às demandas, devem possibilitar uma reflexão sobre o motivo da falta água potável nas torneiras de uma comunidade da periferia, e como esta realidade está relacionada com a política pública de distribuição da água no território. Os participantes do processo devem poder ressignificar a própria existência e suas relações com os outros, aprofundando a solidariedade entre iguais e na elaboração comum de soluções. Devem superar os “fatalismos” e lutar contra as desigualdades; compreender que o direito à água decorre do direito à vida, reconhecido como um direito fundamental.
A partir de uma demanda concreta deve-se promover um processo que leve á compreensão das estruturas sociais que produzem essa realidade.
Esse processo permite que os participantes: Ressignifiquem sua própria existência; fortaleçam laços de solidariedade; superem visões fatalistas e se reconheçam como sujeitos de direitos.
A Tecnologia Social é um processo que deve educar o cidadão para uma práxis emancipadora. A Tecnologia Social constrói soluções de forma participativa, promove a capacidade de “ler o mundo”, ou seja, compreensão das causas estruturais dos problemas que enfrentam; leva à “consciência crítica”, fazendo com que todos assumam sua cidadania numa ação coletiva transformadora. Todos os seres humanos podem produzir conhecimento e desenvolver consciência crítica, independente da condição de sua educação formal. Conheço muitas pessoas que não sabem ler e escrever, mas que tem uma leitura da realidade e engajamento para sua transformação que superam muitos “profissionais do saber”. Não são só os especialistas, professores ou cientistas que produzem conhecimento. E a produção de conhecimento, em todos os níveis e campos, devem ser orientados para a construção de uma sociedade justa. Todas as pessoas as pessoas são capazes de “ler o mundo”, independente da sua formação escolar. A Tecnologia Social traz consigo o diálogo entre saberes, no respeito ao princípio da alteridade.
A Educação Popular, fundamental para nossas ações, mostram que todo ser humano aprende a partir da experiência, interpreta a realidade e cria saberes no cotidiano. Não adianta só falar que a Tecnologia Social segue os valores e as práticas da educação Popular. Creio que devemos voltar às fontes para fazer uma avalição de nossas ações.
A Tecnologia Social vai além de soluções técnicas: ela envolve participação ativa na luta por uma sociedade mais justa e democrática. Suas ações devem promover debate sobre a realidade local, mobilizar cidadãos e fortalecer sua organização para influenciar políticas públicas. Parte do local, mas com consciência de transformação ampla da sociedade. Assim, a participação cidadã é resultado desse processo, que combina uma intenção emancipadora (no local) com uma transformação social mais ampla (no universal). em resumo, uma práxis transformadora
As práticas de Tecnologia Social devem ser compreendidas como um campo estratégico onde práticas comunitárias, conhecimento popular e ação institucional se encontram e apontam para uma nova estrutura política da sociedade. Um espaço de participação social que procura lutar por uma estrutura socializadora e levar ao engajamento para a construção de um Estado democrático, política e economicamente falando. A Tecnologia Social como uma práxis emancipadora que Conscientização crítica
Nós, “professamos” que a Tecnologia Social é uma “ferramenta” na construção de um mundo onde a vida valha a pena de ser vivida, onde o cidadão possa ressignificar a existência e reconhecer-se capaz de mudar sua realidade e, neste processo, construir laços de fraternidade e cooperação.
Nos próximos textos vamos falar sobre as “Raízes da Tecnologia Social” (o segundo), sobre a “Epistemologia da Técnica… e da Consciência Crítica” (o terceiro), sobre a “Tecnologia Social e Processo Civilizatório” (o quarto|), sobre Tecnologia Social e Ética (o quinto) e outros temas afins…
O presente texto pode parecer “o samba de uma nota só” ou ser rotulado como “variação sobre um mesmo tema”, mas vale a pena insistir…
No final de cada texto farei algumas sugestões de leitura para aprofundamento. Não tenho a menor preocupação com citações. As ideias colocadas aqui são baseadas em anotações, textos e experiências que recolhi neste meio de século de caminhada, como fundador, no Instituto de Tecnologia Social e de outro período anterior, de mais de meio século, nas atuações nas brigadas de alfabetização de adultos, nas comunidades eclesiais de base, nos movimentos de lutas populares nas periferia da cidade de São Paulo, fundação de um partido de massa etc., etc.
- Sobre o conceito de Tecnologia Social e seus princípios veja em https://drive.google.com/file/d/1Y5qReMaQMVi1PZ20Uay1TiT42xfDwzTI/view
- Sobre o processo de construção coletiva do conceito, em 4 seminários temáticos com mais de 80 Organizações da Sociedade Civil, veja em https://drive.google.com/file/d/1t_6XBYlR2DQKTtBYZOhM2iu6WNfJamTz/view
- Sobre as posições e propostas das Organizações da Sociedade Civil (Fórum Brasileiro de Tecnologia Social e Inovação – FBTSI) para uma “Política de Estado para Ciência, Tecnologia e Inovação com Vista ao Desenvolvimento Sustentável” apresentadas na 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (2010), veja em https://drive.google.com/file/d/1htSq4xdFvRIbLFYLs13oWPkmUkWxHYq7/view?usp=sharing




