2º texto TecSol pílulas
A Tecnologia Social tem suas raízes em vários movimentos sociopolíticos e filosóficos do século XX.
Os “fundamentos” da Tecnologia Social não surgem de forma isolada nem estritamente técnica; são fruto de processos históricos, políticos e pedagógicos que articulam ação prática, reflexão crítica e compromisso com a transformação da sociedade. Para compreender sua profundidade, é necessário reconhecer as matrizes que a sustentam: experiências de resistência à opressão, debates sobre o papel da ciência e da tecnologia na sociedade e práticas educativas voltadas à emancipação humana. Nesse sentido, a Tecnologia Social dialoga com diferentes movimentos sociopolíticos e filosóficos do século XX que, embora distintos em seus contextos, convergem na defesa da participação ativa dos cidadãos, na valorização do conhecimento produzido coletivamente e na busca por justiça social.
É a partir desse entrelaçamento que se estruturam três referências fundamentais: a luta política e ética contra formas de dominação, expressa na experiência de Gandhi; a reflexão crítica sobre ciência e tecnologia desenvolvida pelo movimento Ciência, Tecnologia e Sociedade; e a prática pedagógica transformadora construída pela Educação Popular e pelos Movimentos Sociais. Esses três eixos não apenas ajudam a compreender a origem e o sentido da Tecnologia Social, mas também orientam suas práticas na atualidade, especialmente no desafio de formar sujeitos críticos capazes de intervir na realidade e transformá-la.
Gandhi e a luta contra a opressão colonizadora inglesa
São muitos os ensinamentos que as práticas de Gandhi nos deixaram como legado. Sua vida dedicada à libertação do povo indiano da colonização inglesa foi marcada por inúmeras e variadas iniciativas com o objetivo de resistir à opressão inglesa. Entre as principais ações do movimento de Gandhi temos: a Satyagraha (resistência não violenta baseada na verdade); a Ahimsa (a não violência como base de sua conduta); a Desobediência Civil (que é a recusa em obedecer a leis injustas); e o Movimento Quit India (a campanha exigindo a retirada imediata dos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial). Mas quero enfatizar o Swadeshi, que é a promoção do uso de produtos locais e o boicote a produtos britânicos — uma ferramenta poderosa na luta dos indianos pela liberdade.
Mahatma Gandhi incentivou a produção de alimentos e fertilizantes naturais para atendimento das necessidades dos habitantes de vilas indianas, por meio de cooperativas familiares e com tecnologias tradicionais. A intenção era desenvolver tecnologias que respondessem às necessidades locais e que respeitassem os valores das comunidades. Incentivou também a popularização da fiação manual para a promoção da autonomia das comunidades locais. Gandhi usava uma roca manual chamada charkha para fiar o algodão e depois costurava suas próprias roupas, utilizando o khadi, um tecido de algodão simples e feito à mão. Este processo passou a ser o símbolo de resistência contra a opressão inglesa sobre o povo indiano. Gandhi incentivava a população indiana a produzir sua própria roupa para promover a autossuficiência, recuperar a cultura milenar da Índia, boicotar a indústria colonial britânica e simbolizar a igualdade — transformando um simples ato cotidiano em um poderoso símbolo de resistência.
Gandhi, com suas “metodologias participativas”, mobilizou milhões de cidadãos indianos, transformou a população em agente ativo da mudança e criou processos replicáveis de mobilização. Aplicou soluções socialmente construídas, eticamente orientadas, tecnicamente simples e politicamente transformadoras.
Gandhi inspirou o surgimento do conceito de Tecnologia Apropriada, que, por sua vez, desencadeou um processo de repensar a relação entre Ciência e Sociedade.
Movimento Ciência, Tecnologia e Sociedade
O Movimento Ciência, Tecnologia e Sociedade, ao qual depois foi incluído Ambiente (CTS e A), aparece com força também nas décadas de 1950 e 1960 do século XX.
Ligado à contracultura da metade do século XX, faz-nos refletir sobre o papel educativo da ciência em contraposição à instrução tecnicista e economicista.
Os cientistas passam a ser vistos como sujeitos sociais que fazem parte de uma comunidade e estão inseridos em contextos sociais, com crenças, valores, interesses e experiências pessoais que influenciam suas escolhas de pesquisa e abordagens científicas. O movimento defende que a ciência não é neutra; está sujeita a influências políticas, econômicas e culturais, e que decisões sobre financiamento, prioridades de pesquisa e divulgação científica são tomadas em contextos políticos.
São vários os “pensadores” que aprofundam o tema. Entre eles, Thomas Kuhn, com A Estrutura das Revoluções Científicas (1962); Gérard Fourez, com A Construção das Ciências (1995); e o economista E. F. Schumacher, com O Negócio é Ser Pequeno: estudos sobre uma economia em que as pessoas são importantes (1983).
Seguindo esta mesma linha de reflexão, outros se preocuparam mais com o que podemos chamar de “Epistemologia da técnica”, “Antropologia Filosófica” ou “Teoria do Conhecimento”; a discussão dessas temáticas nos leva à identificação de diferentes concepções epistemológicas e políticas acerca das relações entre tecnologia e sociedade. A partir de conceitos como tecnologia, ciência, técnica e saberes, podemos encontrar o processo que constitui o gênero humano como ser consciente da própria existência, como ser social que, mediante sua ação em interação com os demais e com o meio, constrói a si e ao mundo em que vive — ou seja, um ser cultural. Entre os que enfrentaram este tema, temos nomes como Martin Heidegger, Gilbert Simondon e Umberto Galimberti. No Brasil, Álvaro Vieira Pinto foi um dos que colocaram em pauta esta reflexão.
Este movimento foi importante para dar início a um questionamento de uma ideia que defendia que a ciência e a tecnologia geram desenvolvimento social e progresso econômico para toda a humanidade, sem questionar as suas consequências no âmbito da distribuição da riqueza produzida, da degradação ambiental e da desigualdade tecnológica entre as nações.
Aderem a este movimento pessoas capazes de refletir sobre as implicações da produção do conhecimento na vida cotidiana, superando a educação tecnicista e garantindo que o desenvolvimento científico responda às necessidades coletivas em vez de apenas a valores econômicos.
Educação Popular e Movimentos Sociais, caminhos para a Conscientização
Mais que um método, a Educação Popular foi um processo que, na década de 1960, trouxe a problemática da libertação das pessoas desumanizadas pela opressão e pela dominação. Trata-se de um processo educativo que buscava educar os seres humanos para serem sujeitos da história, com um compromisso ético e político. Um processo em favor da transformação da realidade opressiva, um processo que busca atuar a partir de uma “práxis transformadora”. Paulo Freire foi o grande expoente deste movimento com Educação como Prática da Liberdade (1967) e Pedagogia do Oprimido (1970), entre outros.
Importantes também foram as Comunidades Eclesiais de Base que surgiram na América Latina, baseadas na prática educativa de Freire. Grupos formados em torno da Igreja Católica, principalmente na periferia das cidades e zonas rurais, que, a partir da leitura do Evangelho sob a “ótica do oprimido”, passam a lutar por um mundo mais justo.
Os temas dos encontros eram ligados à realidade das pessoas, tais como falta de água potável, falta de transporte coletivo, falta de creches e direitos humanos. Este processo consistia em “Ver” a realidade das pessoas a partir das experiências de vida; “Julgar” a realidade confrontando-a com valores éticos, da fé e da justiça social, valorizando a experiência das pessoas e criando uma identificação de grupo; e o “Agir”, que levava à prática — ou seja, a reflexão exigia uma ação transformadora. Um processo de ciclo contínuo: ver o mundo, analisá-lo e refletir em grupo para “ler o mundo” (ou seja, compreendê-lo e organizar as ações para enfrentar os problemas) e recomeçar todo o processo avaliando as ações.
Surgiram os movimentos de luta por água, creches, transporte, moradia, direitos humanos, os movimentos sindicais e muitos outros. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) tem suas origens neste processo.
Foram muitas as contribuições dos “grupos de esquerda” nestas lutas, principalmente contribuindo com “as ferramentas para a compreensão do social”: “Ações locais que levam à compreensão global”.
Estas ações libertadoras reforçaram os Movimentos Populares na América Latina. Foram espaços de luta e resistência contra as ditaduras militares no nosso continente. Portanto, luta contra a opressão e contra as injustiças sociais.
Portanto, a Tecnologia Social traz consigo uma história de engajamento no processo de construção de uma sociedade “onde todos caibam”, uma sociedade humana inclusiva. É muito mais que levar água para “comunidades carentes”, muito mais que oferecer ao pequeno produtor rural um equipamento para facilitar seu trabalho (cf. 1º texto). Uma coisa que deve ficar clara: é importantíssimo que toda ação para responder às demandas das comunidades seja eficaz e eficiente, mas só será uma ação de Tecnologia Social se levar os seus participantes à Consciência Crítica e a uma Práxis Libertadora.
OBS: Este texto tem apenas a pretensão de levantar a questão sobre as origens da Tecnologia Social. Para aprofundar mais, seguem abaixo algumas sugestões:
- GANDHI: A ARTE DA LUTA, Jang Hyeon, Editora Pallas.
- FILOSOFIA DA CIÊNCIA: Introdução ao jogo e suas regras, Rubem Alves, Editora Brasiliense.
- CIÊNCIA E EXISTÊNCIA, Álvaro Vieira Pinto, Editora Paz e Terra. https://drive.google.com/file/d/167mDcPtuE7N39qac3vbd4TJxWAB1LVy8/view?usp=sharing
- TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, Gustavo Gutiérrez, Editora Vozes. https://drive.google.com/file/d/1KE4r8rsAEgfR0MB1ueXDpQ-WTJ4eU8lp/view?usp=sharing
- O QUE É COMUNIDADE ECLESIAL DE BASE, Frei Betto. https://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/freibetto/livro_betto_o_que_e_cebs.pdf
- OS MOVIMENTOS SOCIAIS E A EDUCAÇÃO POPULAR: Uma relação na construção do ser coletivo e emancipado, Henrique Sousa Reis Werickson, Francinalda Maria Rodrigues da Rocha. https://www.editorarealize.com.br/editora/anais/conedu/2019/TRABALHO_EV127_MD1_SA5_ID1650_14082019163851.pdf




